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Vício em jogos pode ser comparado ao vício em drogas? Entenda o que acontece no cérebro

30 de set.
3 min de leitura

Com o crescimento das apostas esportivas e dos jogos on-line, as chamadas bets trouxeram para o centro das discussões um problema que vai muito além da perda de dinheiro: a possibilidade de desenvolver um transtorno relacionado ao jogo. Para algumas pessoas, apostar deixa de ser uma diversão ocasional e passa a ocupar cada vez mais espaço na rotina, nos pensamentos e nas decisões.


Mas será que o vício em jogos pode ser comparado à dependência de álcool ou outras drogas? Embora existam diferenças importantes — afinal, no jogo não há a ingestão de uma substância —, a ciência identifica mecanismos cerebrais e comportamentais em comum. O transtorno do jogo é, inclusive, classificado entre os transtornos relacionados a substâncias e comportamentos aditivos.


O que acontece no cérebro de quem aposta?


Nosso cérebro possui circuitos relacionados à recompensa, motivação e aprendizagem. Quando vivenciamos algo interpretado como recompensador, há participação de neurotransmissores como a dopamina, que ajuda o cérebro a aprender quais comportamentos merecem ser repetidos.


No jogo, esse sistema pode ser estimulado não apenas quando a pessoa ganha. A expectativa de ganhar, a incerteza do resultado e a possibilidade de uma recompensa também podem manter o comportamento. Com a repetição, sinais associados à aposta — como abrir o aplicativo, acompanhar uma partida ou receber uma notificação — podem adquirir grande importância e despertar forte vontade de jogar.


Por que ganhar de vez em quando pode aumentar a vontade de continuar?


Uma característica especialmente importante das apostas é que as recompensas são imprevisíveis. A pessoa não sabe exatamente quando vai ganhar, e essa incerteza pode contribuir para a repetição do comportamento. Uma vitória ocasional pode reforçar a ideia de que vale a pena tentar novamente, mesmo depois de diversas perdas.


Também pode surgir a chamada “perseguição das perdas”: depois de perder dinheiro, a pessoa continua apostando na tentativa de recuperar o prejuízo. Em vez de encerrar o comportamento, a perda pode alimentar uma nova sequência de apostas. Isso ajuda a explicar por que dizer simplesmente “é só parar” pode não representar a complexidade do problema.


Então é igual ao vício em drogas?


Não exatamente, mas existem semelhanças relevantes. Tanto nas dependências de substâncias quanto no transtorno do jogo podem ocorrer alterações em processos ligados à recompensa, motivação, tomada de decisão e controle dos impulsos. A pessoa pode continuar repetindo o comportamento mesmo percebendo consequências negativas.


A principal diferença é que, na dependência química, existe uma substância atuando diretamente no organismo e podem ocorrer fenômenos específicos, como intoxicação e determinadas síndromes de abstinência física. No transtorno do jogo, não há consumo de uma droga, mas a compulsão pode ser intensa e causar prejuízos significativos à saúde mental, às finanças, ao trabalho e aos relacionamentos.


Quando a aposta deixa de ser diversão?


Um dos sinais de alerta é quando apostar começa a ocupar uma parcela desproporcional dos pensamentos e da rotina. A pessoa pode sentir necessidade de apostar quantias cada vez maiores, fazer várias tentativas frustradas de parar, esconder de familiares quanto perdeu ou ficar inquieta e irritada quando tenta reduzir o comportamento.


Outro sinal preocupante é comprometer dinheiro destinado a necessidades básicas, acumular dívidas ou recorrer a outras pessoas para resolver problemas financeiros provocados pelas apostas. Em alguns casos, trabalho, estudos e relacionamentos também começam a ser prejudicados.


Não é simplesmente falta de força de vontade


Quando existe um transtorno relacionado ao jogo, reduzir tudo a “falta de controle” ou “falta de responsabilidade” pode dificultar a procura por ajuda. Estamos falando de uma condição reconhecida na área da saúde mental, que envolve fatores comportamentais, psicológicos e neurobiológicos.


Além disso, ansiedade, depressão, uso de álcool e outras condições podem coexistir com problemas relacionados às apostas. Por isso, uma avaliação profissional é importante para compreender o quadro como um todo, em vez de olhar apenas para o dinheiro perdido.


Existe tratamento para o vício em jogos?


Sim. O tratamento pode envolver psicoterapia, acompanhamento psiquiátrico quando necessário, estratégias para dificultar o acesso às apostas e organização financeira, além do apoio de familiares e pessoas próximas. A abordagem depende da intensidade do problema e das necessidades de cada pessoa.


Reconhecer que o jogo deixou de ser entretenimento é um passo importante. Quando apostar passa a provocar sofrimento, dívidas, mentiras, conflitos ou uma sensação de perda de controle, buscar ajuda especializada não precisa esperar que as consequências se tornem ainda maiores. O problema não está apenas no valor apostado, mas na relação que a pessoa passou a estabelecer com o jogo.

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