Érick Jacquin coloca stents: por que esse procedimento pode salvar vidas?

O chef de cozinha e apresentador de TV Érick Jacquin, de 61 anos, foi submetido recentemente a uma angioplastia com a colocação de três stents nas artérias coronárias. Segundo informações divulgadas por sua assessoria, ele procurou atendimento após apresentar uma indisposição durante uma gravação. Na avaliação hospitalar, os médicos identificaram a necessidade da intervenção, que foi realizada com sucesso.
O caso chama atenção para um procedimento muito utilizado na cardiologia: a angioplastia coronária com implante de stent. Em determinadas situações, principalmente quando existe uma obstrução importante comprometendo o fluxo sanguíneo do coração, a intervenção permite restabelecer a passagem do sangue pela artéria e pode ser decisiva para preservar o músculo cardíaco.
Primeiro: o que acontece quando uma artéria do coração fica obstruída?
As artérias coronárias são responsáveis por levar sangue rico em oxigênio ao músculo cardíaco. Com o desenvolvimento da doença arterial coronariana, placas de gordura e outras substâncias podem se acumular na parede desses vasos, estreitando o espaço disponível para a passagem do sangue.
Em determinadas situações, uma dessas placas pode se romper e favorecer a formação de um coágulo. Se o fluxo sanguíneo for significativamente reduzido ou interrompido, uma parte do coração deixa de receber oxigênio adequadamente. Quando essa interrupção provoca a morte de células do músculo cardíaco, ocorre o infarto do miocárdio.
O que é a angioplastia?
A angioplastia coronária é um procedimento minimamente invasivo realizado por meio de um cateter. O acesso costuma ser feito por uma artéria do punho ou da região da virilha. O médico conduz o cateter até as artérias do coração e utiliza contraste e imagens de raio-X para identificar os locais onde existem estreitamentos ou obstruções.
Quando existe indicação, um pequeno balão é levado até a região comprometida e insuflado para ampliar a passagem. Frequentemente, o procedimento é complementado pela implantação de um stent, que permanece naquele ponto da artéria ajudando a mantê-la aberta.
Afinal, o que é o stent?
O stent é uma pequena estrutura metálica expansível implantada dentro da artéria. Podemos imaginá-lo como uma espécie de suporte que mantém aberto o trecho que estava estreitado, permitindo que o sangue volte a circular de maneira adequada.
Atualmente, muitos stents são farmacológicos, ou seja, possuem medicamentos em seu revestimento que são liberados localmente para diminuir a proliferação excessiva de tecido e reduzir o risco de a artéria voltar a estreitar naquele ponto. A Sociedade Brasileira de Cardiologia mantém diretrizes específicas para a intervenção coronária percutânea, procedimento do qual o implante de stent faz parte.
Por que colocar um stent pode salvar uma vida?
Em um infarto causado pela obstrução aguda de uma artéria coronária, cada minuto importa. Quanto mais tempo uma região do coração permanece sem receber sangue adequadamente, maior pode ser a extensão do dano ao músculo cardíaco. A angioplastia permite chegar diretamente ao vaso comprometido e restabelecer o fluxo sanguíneo.
Por isso, quando indicada em situações agudas, a intervenção coronária pode ser um tratamento decisivo. Desobstruir rapidamente a artéria pode limitar o dano ao coração e reduzir complicações graves. Porém, nem toda obstrução coronariana exige um stent: a decisão depende do quadro clínico, dos exames, da localização e gravidade da lesão e de outros fatores avaliados pela equipe médica.
Colocar o stent significa que o problema foi resolvido?
O procedimento trata a obstrução identificada, mas não elimina a doença arterial coronariana como um todo. Esse é um ponto fundamental. Uma pessoa pode ter outras placas nas artérias e continuar apresentando fatores que favorecem a progressão da aterosclerose.
Depois da angioplastia, portanto, começa uma etapa igualmente importante do tratamento. O acompanhamento cardiológico, o uso correto das medicações prescritas e o controle de fatores de risco são essenciais para reduzir a possibilidade de novos eventos cardiovasculares. Como resumiu um cardiologista ouvido pela CNN no contexto do caso de Jacquin, o stent resolve a obstrução naquele momento, mas a proteção de longo prazo depende da continuidade do tratamento.
O tratamento continua depois da alta
Após o implante de um stent, é comum que sejam prescritos medicamentos antiplaquetários para diminuir a formação de coágulos no dispositivo. Dependendo do caso, o tratamento também pode incluir medicamentos para controle do colesterol, pressão arterial, diabetes e outros fatores relacionados ao risco cardiovascular. Essas medicações não devem ser interrompidas por conta própria, especialmente os antiplaquetários.
Também entram nessa estratégia mudanças de estilo de vida, como abandonar o cigarro, manter alimentação adequada, controlar o peso e praticar atividade física conforme a liberação médica. Pressão alta, colesterol elevado e diabetes também precisam permanecer sob acompanhamento.
O coração nem sempre dá um aviso óbvio
Um dos aspectos importantes do caso de Jacquin é que ele procurou atendimento após apresentar uma “indisposição”. Nem todo problema coronariano começa com aquela dor intensa no peito que muitas pessoas associam imediatamente ao infarto. A doença coronariana também pode evoluir silenciosamente por algum tempo.
Pressão ou dor no peito, falta de ar, suor frio, náusea, tontura, sensação de desmaio e desconforto que se espalha para braços, costas ou mandíbula estão entre manifestações que podem exigir avaliação imediata. Diante de sintomas sugestivos de infarto, procurar atendimento de emergência rapidamente é fundamental.
O stent é parte de um tratamento maior
A tecnologia tornou possível acessar uma artéria do coração por um pequeno ponto no punho ou na virilha, identificar uma obstrução e, quando indicado, restabelecer o fluxo sanguíneo sem a necessidade de uma cirurgia cardíaca aberta. Em situações específicas, isso pode representar uma diferença decisiva no prognóstico do paciente.
Mas existe uma mensagem que precisa permanecer depois do procedimento: o stent cuida de uma obstrução; o paciente continua precisando cuidar da doença cardiovascular. Medicação, acompanhamento, controle dos fatores de risco e mudanças de hábitos fazem parte do tratamento tanto quanto a intervenção realizada no hospital. Cuidar do coração não termina quando o paciente recebe alta.



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